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CD COISA MAIS LINDA (2003) - Tárik de Souza

DISCO

Poeta da melodia, Carlos Lyra é um dos ícones da MPB de alto refino desde antes do rótulo bossa nova, quando ele próprio carimbou a reformulação do velho gênero nascido na casa da Tia Ciata, no centro do Rio, com o nome de sambalanço. De sua fase inicial _ ainda como autor de letra & música _ é a precursora “Maria ninguém” incluída no primeiro disco de João Gilberto, em 1959, sucesso internacional sussurrado até pela diva Brigitte Bardot, aqui revisitado pela papisa do rock nativo Rita Lee, em 1993, acompanhada por violão e guitarra de Alexandre Fontanetti e mais Fábio Fontanetti (baixo), Paulo Zinner (bateria) e Milton Guedes (flauta). Ela acopla a bossa à balada beatle “Do you want to know a secret”, dos primórdios da dupla Lennon & McCartney, em 1963. A lira solitária de Carlos também desfila na sincopada “Influência do jazz”, um ensaio musicado sobre a importação cultural, que ele tinha antecipado na precursora “Criticando”, registrada pelo grupo vocal Os Cariocas, em 1957. Também na voz do autor, do mesmo CD “Bossa Lyra”, gravado em 1993 para o mercado japonês, com arranjos, piano e teclados de Antonio Adolfo, são os clássicos “Lobo bobo” e “Se é tarde me perdoa” (ambas parcerias com Ronaldo Bôscoli), este último com vocálise de Lisa Ono.

Outra parceria fundamental para a lira de Carlos é a com o poeta Vinicius de Moraes ambos artífices do musical “Pobre menina rica”, de 1963. Quase todos os os temas viraram clássicos como “Primavera”, regravado com toda a pompa por Maria Bethânia no CD “Maricotinha” (2001), ladeada por Jaime Além (violão), João Carlos Coutinho (piano), Jorge Helder (baixo), Pantico Rocha (bateria) e arranjo de cordas de Graham Preskett. Bem antes, no começo da carreira em 1964, Flora Purim que brilharia nos EUA, registrou o matreiro “Cartão de visita”, num arranjo típico do hoje chamado samba-jazz, de autoria de Paulo Moura com um opulento naipe de sopros, o piano de Salvador Silva Filho, o Dom Salvador, o baixo de Gusmão e a bateria demolidora de Dom Um Romão. Também do “score” de “Pobre menina” é o hino “Samba do carioca” que a cantora Miucha e o compositor, cantor e pianista Tom Jobim regravaram em Nova Iorque em 1979. “Miucha & Tom Jobim contou com Ron Carter (baixo), Oscar Castro Neves (violão) e Rubens Bassini (percussão). Destawue para o dissonante arranjo vocal do duo.

Pós-bossanovista de estirpe, com sua emissão “cool”, Leila Pinheiro regravou “Sabe você” no disco “Isso é bossa nova”, de 1994, sob arranjos, regências e teclados de Jota Moraes. Ainda do mesmo musical é a pré-feminista “Maria Moita” (“e é deitada, em pé/ mulher tem é que trabalhar”), aqui na releitura sob medida da militante Joyce, outra intérprete (e autora) ninada nos cânones da bossa. A faixa é de seu disco “Vinicius de Moraes – Negro demais no coração”, de 1988. Interprete que excursionou várias vezes com Vinicius, a baiana Maria Creuza revisita outro totem da dupla autoral, a “Marcha da quarta feira de cinzas” em seu disco “Poético”, de 1982. Lançada em 1963, a marcha rancho premonitória (“acabou nosso carnaval/ ninguém ouve cantar canções/ e nos corações, saudades e cinzas foi o que restou”) prenunciava os anos de chumbo do regime militar que se seguiria. Também no compasso de marcha rancho, fechando o ciclo de cinzas da ditadura, em parceria com o cineasta e letrista Ruy Guerra, “Entrudo” tem um raro (e aliciante) desempenho de Elis Regina, capturado em “Elis Especial”, de 1979. Musa da bossa com todas as implicações do cargo que sempre recusou, Nara Leão numa produção, violão e arranjos de Roberto Menescal, revisita os meandros de “Você e eu” no LP “Garota de Ipanema”, gravado para o mercado japonês em 1986. Integrante da geração nordestina que assomou na MPB nos 70, o cearense Raimundo Fagner no disco “Demais”(1993) dedicado aos “standards” do ramo, encara a face modinheira da bossa de Lyra, a programática “Minha namorada”, mais uma parceria com Vinicius.

A ultralírica faixa título _ de novo assinada por Carlos & Vina _ ganha o prisma multifacetado do cristal vocal de Gal Costa. Gravada para o “Songbook” de Carlos Lyra da Lumiar Discos do produtor Almir Chediak, esta versão de “Coisa mais linda” sintetiza apenas na voz encantatória da cantora e no magnífico violão de Paulo Belinatti a essência da bossa nova e da própria obra de Lyra. Fica até dispensado o banquinho.

Tárik de Souza

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