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CD HERÓI DO MEDO (2002) - Carlos Lyra

DISCO

Ninguém pode prever o que teria acontecido, a este disco, se tivesse sido lançado normalmente, como foi previsto (em vinil), em 1974. Mas não foi. E agora por ocasião de seu relançamento em CD, tem mais o caráter e a importância de um disco histórico do que apenas de carreira musical.

Eu acabara de voltar do México, após um auto-exílio de 7 anos, chegando de volta ao Brasil em pleno governo Garrastazu Medici. Depois de outras tentativas fonográficas, prejudicadas pelo mercado e censura vigentes, acabei optando por desabafar, audaciosamente, numa resposta enérgica e política às contingências da época. Isso resultou num disco que hoje, pode até ser considerado “dark”.

Na época, antes de qualquer lançamento, o LP foi proibido pela censura, inclusive devido ao título HERÓI DO MEDO. Enderecei uma carta a Brasília justificando (enganosamente) as letras das canções (todas com música e letra minhas), que haviam provocado a fúria da censura. A saber: a canção título HERÓI DO MEDO e mais O SEGREDO, O MUTILADO, SUPERAMOR e ERA UMA VEZ A HISTÓRIA. A carta caiu nas mãos de algum liberal em Brasília, que autorizou o lançamento do disco, dois anos depois. Só que tarde demais porque eu já me encontrava em novo auto-exílio de também outros dois anos, não estando sequer presente para divulgar o disco que com a minha ausência resultou em “ninguém sabe, ninguém viu” e ninguém ouviu.

Além das músicas incendiárias, o disco contava, no entanto, com canções muito líricas do tipo CARA BONITA (de minha só autoria), CANAÃ (com Ruy Guerra), RANCHO EM BRANCO E PRETO (com Ronaldo Bôscoli), AMANDA (com Jésus Rocha) e “PULSARS” (instrumental). Mesmo as letras incendiárias são acompanhadas de melodias contrastantemente líricas.

Na época do disco, eu estava tão distante de casa, quer dizer, do espírito de o amor, o sorriso e a flor da Bossa Nova, que quando na volta de meu segundo auto-exílio, em 1976, as poucas pessoas a quem mostrei o LP responderam de forma inusitada. Marcos Valle, por exemplo, achou que eu tinha enlouquecido. Já Sérgio Mendes e minha mulher Kate (ambos, cada um a seu modo, brasileiros mas feitos nos Estados Unidos), adoraram tudo. Um grupo íntimo para quem fiz uma audição particular ficou tão indignado que acabou por me fazer sentir como deve ter se sentido Stravinky durante o fiasco da primeira apresentação, em Paris de Ritos da Primavera. Melhor que tudo foi a reação de meu amigo Cartola quando lhe relatando da proibição do disco, entrou numa loja próxima ao bar em que conversávamos, comprou-o corajosamente e pediu que o pusessem na “vitrola” para que fosse ouvido da rua. Jamais esquecerei sua expressão de perplexidade, quando começou a soar a primeira canção: ERA UMA VEZ A HISTÓRIA.

Apesar de todos os percalços (inclusive os arranjos sublinhados por teclados eletrônicos, coisa muito comum na época), o disco conta uma fase da minha vida e carreira onde eu, por minha vez, me indignava com aqueles que usavam, sem limites, da arbitrariedade e da intolerância, além dos que pela cumplicidade do oportunismo e do comodismo estavam coniventes com o estado de coisas de então. A eles estava dedicado e endereçado o HEROI DO MEDO.

Carlos Lyra

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