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PRIMAVERAS E NAMORADAS
Luiz Nassif
MAIO/2002

A bossa nova teve um Olimpo restrito, seguido de uma quantidade razoável de semi-deuses. E esse Olimpo era constituído pelos letristas Vinicius de Moraes e Ronaldo Bôscoli, por João Gilberto, o intérprete que define a batida, e por três compositores fundamentais: Tom Jobim, Carlos Lyra e Roberto Menescal.
Se se tomar o período áureo, de meados dos anos 50 a final dos anos 60, mesmo que não houvesse Tom Jobim, teria havido Carlos Lyra. Na bossa nova, a produção de ambos se equivalem no refinamento, na qualidade harmônica, na mútua influência que se exerceram, na projeção internacional. E no fato de, junto com Baden Powell, terem se constituído na Santíssima Trindade de Vinicius, os compositores a quem o mestre dedicou suas letras mais brilhantes.
Depois de terminado o movimento, Jobim continuou na sua trilha de maior melodista do século. E Lyra enveredou por todos os movimentos culturais do período, do Tablado, do Centro Popular de Cultura, da União Nacional dos Estudantes, ao Teatro de Arena, passando por peças infantis premiadas.
Lyra nasceu em 1936 no Rio de Janeiro, filho de um oficial da Marinha que morreu quando ele tinha 13 anos. Ganhou um violão da mãe, em um período em que ficou preso em casa por conta de uma perna quebrada. Aprendeu nos métodos de Paraguaçu e de Patrício Teixeira, pobrezinhos como eles só. Depois, aprimorou-se um pouco com Garoto, de quem foi aluno pouco tempo antes de sua morte.
Assim como todos os grandes da bossa nova, é filho direto do samba-canção, em primeiro plano, e do choro em segundo plano. Em uma das minhas colunas, falava-se da importância e do refinamento do samba-canção pré-bossa-nova, erroneamente tratado como música brega. Lyra considera a bossa nova uma continuação do samba-canção, com uma diferença: a batida de João Gilberto.
A primeira música de Lyra, composta aos 18 anos, já foi um clássico do samba-canção, o “Quando Chegares” (“quando chegares aqui / podes entrar sem bater / ligue a vitrola baixinho / espera o anoitecer”)..
Pouco tempo, Geraldo Vandré interpretou a música “Menina” (“o que seu pai vai dizer / menina eu não presto não para você / eu sou coisa ruim / será que você quer / que falem de você também / do jeito que falam de mim”) de Lyra, com a qual venceu o Primeiro Festival Internacional da Canção da TV Rio. Em 1955 a música foi gravada por Sylvia Telles em uma bolacha que tinha do outro lado “Foi a Noite”, outro samba-canção clássico de Tom Jobim e Newton Mendonça.
No ano seguinte, Lyra compôs um de seus maiores clássicos, o “Maria Ninguém” ( “Maria Ninguém / é Maria e é Maria meu bem”), autêntico samba-choro, composto antes do lançamento oficial da bossa-nova. Anos depois foi tocada na Casa Branca por Paul Winter e Jackie Kennedy declarou ser sua bossa nova predileta.
Passou por inúmeros parceiros, compondo clássicos da MPB. Com Vandré compôs “Quem quiser encontrar o amor” e “Aruanda”. Com Chico de Assis, o “Subdesenvolvido”. Com Ronaldo Bôscoli compôs uma fieira, que passa por “Lobo Bobo”, “Canção que morre no ar”, “Se é tarde me perdoa”, que aqueceu tantas serenatas em São João da Boa Vista.
Mas foi com Vinicius que compôs a parte mais brilhante da sua obra, e uma das mais expressivas obras da música popular brasileira de todos os tempos.
“Primavera”, “Marcha da Quarta Feira de Cinzas”, “Coisa Mais Linda”, “Você e Eu”, “Samba do Carioca”, “Maria Moita”, “Minha Namorada”, “Pau de Arara”. Uma de suas principais composições, “Primavera” (“o meu amor sozinho / é assim como o jardim sem flor”), com Vinicius, era originalmente um choro.
No Centro Popular de Cultura do Rio, criado em 1961 por Oduvaldo Vianna Filho, ao lado de Ferreira Gullar, Leon Hirschman, Lyra participou de um dos momentos mais ricos da cultura popular brasileira. O CPC ajudou a redescobrir Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Ketty, a lançar o Quarteto em Cy e o Tamba Trio.
Em 1965 seguiu para os Estados Unidos, tocando com Stan Getz e Paul Winter. Com Jobim e Gilberto ajudou a definir uma nova face para o Brasil, rapazes bonitos, modernos e musicais, levando para o mundo a imagem de um país que se modernizava.
Em 1975 enveredou pela astrologia. Recentemente apareceu em alguns shows, lançou alguns discos, continua rodando o mundo mostrando a música que todos querem ouvir.
De minha parte, não há noitada ou sarau em casa que não passe por “Marcha da Quarta Feira de Cinzas”, “Maria Ninguém”, “Primavera”, tratadas com mimo, como filhas eternamente modernas da MPB.

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